Caritas in Veritate
Dalton Melo de Andrade
17 Julho 2009
A Igreja Católica sempre expressou sua preocupação com o social. Inúmeras encíclicas foram elaboradas trazendo à luz o pensamento da Igreja nos últimos anos, tendo sido do Papa Leão XIII, no auge da revolução industrial e seu tratamento desumano dos operários, a “Rerum Novarum”, de 15 de maio de 1891, que versou exatamente sobre o problema dos operários.
Depois coube ao Papa João XXIII, no século passado, 15 de maio de 1961, com a “Mater et Magistra”, abordar os vários aspectos referentes às questões sociais trazidas pelo desenvolvimento.
Paulo VI, por sua vez, emitiu a “Popularum Progresso”, em 26 de março de 1967, sobre o desenvolvimento dos povos, encíclica que teve ampla repercussão em todo o mundo. Nessa época, era eu Diretor da Associação Comercial do RN, e fizemos algumas discussões sobre alguns dos pontos por ela abordados. Despertava, em um de seus vários aspectos, uma preocupação sobre a responsabilidade social das empresas. Lembro-me que, incentivados pela Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas, de São Paulo, organizamos aqui uma associação semelhante. Não sei se ainda existe.
João Paulo II, em 14 de setembro de 1981, publicou “Laborem exercens”, sobre o trabalho humano, no aniversário de noventa anos da “Rerum Novarum. O mesmo Papa, em 30 de dezembro de 1987, publicou “Sollicitudo Rei Socialis”, em que reafirma a permanente preocupação da Igreja com evolução social da humanidade, comemorando os vinte anos da “Popularum Progresso”. Ainda de sua lavra foi “Centesimus Annus”, comemorando os cem anos da “Rerum Novarum”, reafirma os valores e ensinamentos desta encíclica e de seus ensinamentos e postulados.
Agora vem Bento XVI focalizar os aspectos econômicos da atualidade, com a sua recém publicada encíclica “Caritas in Veritate” ( numa tradução literal “Caridade na Verdade”). É uma longa encíclica, cuja tradução que conheço, em inglês, tem 144 páginas, e aborda os temas atuais das dificuldades econômicas que atravessa o mundo, externando a opinião da Igreja e apresentando sugestões às nações para a solução dos diversos problemas trazidos pela crise.
Surpreendeu pela sua posição favorável ao capitalismo, e lembra sua responsabilidade social e a necessidade de sua regulamentação. Prega um governo mundial mais fortalecido, ou seja, uma ONU com mais poder de decisão. Preocupa-se com o meio ambiente, discute a globalização, o estado de bem-estar social, o peso dos governos na sociedade, enfim, examina uma ampla gama dos problemas que permeiam a sociedade, buscando oferecer caminhos que levem à sua melhoria.
Não li ainda as 144 páginas detalhadamente. Fiz um “vol d’oiseau”. Mas li muitos comentários na imprensa internacional, praticamente todos eles elogiosos à encíclica. Alguns com títulos interessantes, como o artigo de Ross Douhat no “New York Times”- “A Audácia do Papa”. Outros o chamam de liberal, outros mantêm a tese de que continua conservador. Há opiniões para todos os gostos.
Sem duvida nenhuma, esta nova encíclica será discutida por muitos e por muito tempo, e terá um impacto no pensamento econômico nos próximos anos, influenciando muitas das decisões futuras.

