Da Nostalgia
“Saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado” (Dic. Houaiss)
Lembrei-me de meus dias de menino em Natal. Foi nesta Semana Santa, em Gramado e Canelas. No domingo passado (dia 24/3), fui a Missa em Canelas. Missa das onze. Em português, com a liturgia moderna, mas respeitando antigas tradições. Um bom coral, com umas 12 pessoas, um bom órgão, cantando músicas sacras que há muito não ouvia. O Padre, com seus acólitos, usando o turíbulo, espargindo incenso pela igreja, circundando o altar. Ao final, anunciou que estaria à porta, para cumprimentar seus párocos. Identifiquei-me como do Rio Grande do Norte, apresentei minha esposa e meus filhos, Júlio e Cristina. Ficou feliz em nos saber de tão longe, ter pessoas “do outro Rio Grande”, em sua celebração.
Quinta-Feira Santa, em Gramado. Sete da noite. Missa solene. Cantada. Um ótimo e bem tocado órgão, acompanhando o magnífico coral da Prefeitura; talvez uns 30 figurantes, com um ótimo maestro. (Lembrou-me nosso Pe. Pedro Ferreira). De novo, músicas sacras que há muito não ouvia. Igreja simples, mas bonita, iluminação apropriada ao momento de contrição. Missa iniciada com a procissão que trazia o Padre, entrando pela frente da igreja, com um bom número de sacerdotes e acólitos, turíbulo à frente, velas. Ambiente de religiosidade. De emoção. De nostalgia.
Veio-me à memória meu tio-avô, Monsenhor Calazans Pinheiro. Pareceu-me vê-lo em sua paróquia. Naquele tempo, música sacra semelhante às que agora escutava, turíbulo, religiosidade. Ambiente que eleva o espírito à comunhão com Deus. Que tranqüiliza, que inspira, que o faz pensar.
Lembrei-me da minha avó, Emilia Pinheiro de Mello, que morreu aos 101. Cantava todas as músicas que ali ouvi. Voltei ao tempo de menino, e parecia vê-la, envolta em seu xale, lenço cobrindo a cabeça, contrita. Músicas que, de vez em quando, ainda me vêm à mente.
Os mais jovens que por acaso estejam a ler talvez pensem: velho, lembrando, ou talvez mesmo, querendo voltar ao passado. Nada disso. “Senior”, forma carinhosa, e respeitosa, como, em inglês, são tratados os da terceira idade, tudo bem. Pior é a alternativa. E não é voltar ao passado. É apenas o desejo de manter nossas tradições, jogadas para o alto sem o mínimo respeito. É aceitar o novo, sem abandonar o antigo. É viver o presente, lembrando o passado. É desfrutar das coisas belas que sempre tivemos, é respeitar nossas tradições, esquecidas.
Em Canela, em Gramado, isso não ocorre. É o novo ao lado do tradicional. Faz falta, e deixa saudades.
(2004)

