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Da Encomenda

sábado, fevereiro 23rd, 2002

Quem não já passou por isso! Fazer ou pedir encomendas é doença nacional. Dou um doce a quem não tiver recebido um pedido desses, para levar ou trazer.

Lembro-me de um tio meu, Pelúsio Mello, nos tempos de estudante de Medicina no Recife, aí pelos idos dos anos 30. Viaja-se de trem, Great Western, saindo cedinho e chegando às 9 da noite - quando tudo ia bem. Pediram-lhe que levasse uma lata de biscoito Pilar (a jovem guarda não conheceu a lata), cheia de cocadas. Foi um sucesso com os colegas, porém Pelúsio resistia impávido. Mas, por volta do meio dia, a fome era maior que o autocontrole, e resolveu comer uma cocada; como era um portador sério, escreveu um “vale uma cocada” e colocou na lata. O assédio dos colegas foi tal que, ao chegarem no destino, a lata estava cheia de papeis com o “vale uma cocada”.

Não chego a tanto. Já comi um bolo inteiro, numa viagem de navio ao Rio, junto com Walflan Queiroz - por sinal, era ele o portador. Sem vales. Não sei que desculpa deu, mas sem dúvida foi inteligente e aceita pelas “partes”.

Minha experiência é diferente. Convenhamos, sou um bom portador, indo ou voltando. (Atenção, isso não é propaganda e não serve para ser explorado). Tento, no melhor do possível, atender aos pedidos dos amigos. Mais das vezes consigo. Casos há, porém, impossíveis.

Numa das minhas viagens à Londres, um grande amigo pediu-me um CD com músicas da Segunda Guerra; especial, não encontrado no Brasil, com bandas e cantores ingleses da época, e até me interessei em comprar um para mim. Deu-me todas as informações, rua, bairro, linha de ônibus, metro, telefone - era longe do miolo londrino habitual dos visitantes fugazes. No hotel, o rapaz da recepção olhou para mim com ares de despedida, assim como um “goodbye” definitivo, quando lhe pedi informações. Desconfiado, convidei Odilon Garcia, que estava comigo, para a aventura.

Saímos aí pelas nove da manhã e voltamos, são e salvos, por volta das duas da tarde. No ínterim, andamos horas de ônibus, chegamos ao mais decrépito dos lugares, vimos às caras mais mal encaradas da paróquia, e encontramos o lugar sim, fechado, sem qualquer indicação de gravadora, e sem vivalma. Havia recebido uma “Mensagem a Garcia”, sem trocadilhos. Tenho absoluta certeza de que mesmo Sherlock Holmes, nas suas andanças londrinas em busca de criminosos, não se aventuraria naquele lugar - com ou sem Watson.

Fiquei um tanto decepcionado. Principalmente por não ter cumprido a “missão”. Para comprovar o feito, além da aventura, tirei fotografias da “gravadora”, comprovando sua inexistência, guardei os tíquetes do ônibus, tudo para que o meu amigo, que eu sabia nunca desconfiaria de mim, ficasse absolutamente certo das peripécias. E ao entregar-lhe todo esse “material”, qual foi minha surpresa ao ter a informação, “rapaz, depois que você viajou descobri que o CD era pirata e o endereço fajuto, mas não tive como lhe avisar”. Valeu a experiência, pois, daí por diante, resisto muito a novas encomendas, que sempre surgem.