Da Nostalgia

Posted in Outros trabalhos by Dalton on julho 7th, 2008

“Saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado” (Dic. Houaiss)

Lembrei-me de meus dias de menino em Natal. Foi nesta Semana Santa, em Gramado e Canelas. No domingo passado (dia 24/3), fui a Missa em Canelas. Missa das onze. Em português, com a liturgia moderna, mas respeitando antigas tradições. Um bom coral, com umas 12 pessoas, um bom órgão, cantando músicas sacras que há muito não ouvia. O Padre, com seus acólitos, usando o turíbulo, espargindo incenso pela igreja, circundando o altar. Ao final, anunciou que estaria à porta, para cumprimentar seus párocos. Identifiquei-me como do Rio Grande do Norte, apresentei minha esposa e meus filhos, Júlio e Cristina. Ficou feliz em nos saber de tão longe, ter pessoas “do outro Rio Grande”, em sua celebração.
Quinta-Feira Santa, em Gramado. Sete da noite. Missa solene. Cantada. Um ótimo e bem tocado órgão, acompanhando o magnífico coral da Prefeitura; talvez uns 30 figurantes, com um ótimo maestro. (Lembrou-me nosso Pe. Pedro Ferreira). De novo, músicas sacras que há muito não ouvia. Igreja simples, mas bonita, iluminação apropriada ao momento de contrição. Missa iniciada com a procissão que trazia o Padre, entrando pela frente da igreja, com um bom número de sacerdotes e acólitos, turíbulo à frente, velas. Ambiente de religiosidade. De emoção. De nostalgia.
Veio-me à memória meu tio-avô, Monsenhor Calazans Pinheiro. Pareceu-me vê-lo em sua paróquia. Naquele tempo, música sacra semelhante às que agora escutava, turíbulo, religiosidade. Ambiente que eleva o espírito à comunhão com Deus. Que tranqüiliza, que inspira, que o faz pensar.
Lembrei-me da minha avó, Emilia Pinheiro de Mello, que morreu aos 101. Cantava todas as músicas que ali ouvi. Voltei ao tempo de menino, e parecia vê-la, envolta em seu xale, lenço cobrindo a cabeça, contrita. Músicas que, de vez em quando, ainda me vêm à mente.
Os mais jovens que por acaso estejam a ler talvez pensem: velho, lembrando, ou talvez mesmo, querendo voltar ao passado. Nada disso. “Senior”, forma carinhosa, e respeitosa, como, em inglês, são tratados os da terceira idade, tudo bem. Pior é a alternativa. E não é voltar ao passado. É apenas o desejo de manter nossas tradições, jogadas para o alto sem o mínimo respeito. É aceitar o novo, sem abandonar o antigo. É viver o presente, lembrando o passado. É desfrutar das coisas belas que sempre tivemos, é respeitar nossas tradições, esquecidas.
Em Canela, em Gramado, isso não ocorre. É o novo ao lado do tradicional. Faz falta, e deixa saudades.

(2004)

Do Palito

Posted in Outros trabalhos by Dalton on julho 7th, 2008

Os dentistas que me perdoem, mas o palito é fundamental (parodiando Vinicius). Estava à mesa como um instrumento tão importante quanto à faca e o garfo. Confiável, útil, disponível. Hoje, não é mais assim.
Meu primeiro choque foi há mais de 30 anos. Primeira vez nos Estados Unidos notei a injustificada ausência desse vital instrumento para a higiene bucal. Perguntando, fui informado que, à saída, ao lado do caixa, o encontraria. E lá estava, visível, disponível.      Ultimamente, têm que ser pedidos. Nem mais junto ao caixa se encontram, e isso tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.
Agora, o costume, que eu chamo de mal habito, parece alastrar-se também pela América Latina e, pior, até pelo Brasil. (Mais uma cópia dos E.U. A…?) Começam a esconder o palito! Literalmente! Vem hoje embrulhado, como se estivesse envergonhado de existir. Um em cada pacote, encarecendo o seu preço desnecessariamente, pois o escondê-lo não diminuirá o seu uso. Apenas o camuflará, mas, desembrulhado, surge autêntico e útil como sempre.
Experimente, teste, observe. Poucos são os restaurantes que ainda garantem o lugar que sempre mereceu! Por todos os lados, começa a desaparecer gradativamente de sua posição de destaque, que pensava consagrada, ao lado de seus habituais parceiros, a faca e o garfo.
Sei que é condenado por gregos (dentistas) e troianos (cronistas sociais, especialmente de etiqueta). O acham feio, indiscreto; o seu uso denota sinal de educação duvidosa, falta de bom gosto, e por aí vai. (Aqui entre nós, acho pior cutucar o dente com o dedo, ou, ainda mais feio, chupar o dente.. zzz.zzz.zzz). Mas, digam-me, honestamente, sentem ou não falta do palito à mesa? Quem achar o contrario, atire a primeira pedra (neste caso, o paliteiro, e desde que não seja aquele com a garça de chumbo que “bicava” o palito; muito pesado). Eu, de minha parte, me sinto perdido sem o honesto, corajoso, útil e benéfico (digam o que disserem) palito ao meu lado.
E digo mais. Sofri várias pressões quando pensei em escrever este alerta. Alguns amigos disseram que estava louco em defender o palito. Que cairia no ridículo. Estava saindo do sério. Iam dizer que estava gagá. Tomasse cuidado. Apenas alguns, mais corajosos e decididos, me encorajaram! De qualquer forma, resolvi enfrentar todas as intempéries e defender este valioso instrumento, hoje levado à execração pública – o palito.

(02/2002)

Da intolerância

Posted in Outros trabalhos by Dalton on julho 7th, 2008

“I pray, understand a plain man in his plain meaning”
(Shakespeare, The Merchant of Venice, act. 4, sc. I, l. 63)
“I am not bound to please thou with my answer”
(Shakespeare, The Merchant of Venice, act 4, sc. I, l. 65)

Sempre me considerei, sem falsa modéstia, uma das pessoas mais tolerantes da paróquia. Convivi, e convivo até hoje, com bons amigos e até mesmo nem tanto, que têm opiniões totalmente opostas às minhas, desde política a futebol, sem o menor atrito.
Tenho comigo mesmo, desenvolvido ao passar dos anos, um dogma, única exceção à tolerância. Discussões não duram mais que dois minutos, e, se grosseiras ou possivelmente grosseiras, nem as inicio. É um problema de foro intimo. Além de desnecessárias, são contraproducentes e fazem mal ao coração. Não levam a nada. Não tenho a mínima intenção de mudar a cabeça de alguém.
Dito isto, já entenderam os meus possíveis leitores o não ter eu respondido ao tragicômico artigo que pretende destronar o palito de seu lugar de honra. E também porque nem mesmo mencionei o fio dental, seja contra, seja a favor. Todos têm o seu livre arbítrio e podem usar o que quiserem, ou não usar; para mim, tanto faz.
No entanto, como amigos e amigas tomaram o bastão da minha defesa, tem este a finalidade de os agradecer. Entenderam minha intenção, o “espírito da coisa”, que foi meramente no sentido jocoso, da brincadeira, do humor, já que a vida é tão cheia de sofrimentos e tristezas, tanta miséria e tanta maldade.
Como seria bom se todos nós pudéssemos, no nosso dia a dia, pôr um pouco de humor nas nossas vidas, fazer os nossos fardos diários mais leves, encontrar em cada esquina uma pessoa sorridente, nos fortalecendo para enfrentarmos a fila dos bancos, a confusão do trânsito, os problemas do trabalho e a falta de dinheiro… O mundo seria outro. E o meu tão incompreendido “Do palito” (por alguns), não pretendeu mais do que jogar uma pitada de humor no dia a dia da nossa atribulada vida. Paciência. De intolerantes está cheio o reino de Deus. E, como diria o poeta, “Bola p’ra frente que o Real Madrid não é de nada”. Tenho dito, e não mais voltarei ao assunto. Vamos falar de outras coisas. Chega de palitos, embora continue com o meu.

(02/03/2002)

Da II Guerra que eu vi

Posted in Outros trabalhos by Dalton on julho 1st, 2008

Natal antes da II Guerra

Há que voltar um pouco no tempo, antes de chegar à época da II Guerra que eu vi. Como a II Guerra, estes fatos marcaram minha infância, e são como que uma introdução. Lembro os meus cinco anos de idade, primeira memória mais nítida, em que assisti a Revolução Comunista de 1935.
É como se hoje fosse. Sábado, estava com meu pai, minha mãe e minha irmã, em casa de um tio-avô, Mons. Calazans Pinheiro, na Rua Vigário Bartolomeu, quase esquina com a Ulisses Caldas, quando começou a rebelião, partindo do antigo quartel do 29o. B. C. (Batalhão de Caçadores), que ficava logo ali perto. Hoje é o Colégio Winston Churchill, vizinho ao velho Mercado Público, hoje Banco do Brasil da Cidade Alta.
Começamos ouvindo o tiroteio. Não sabíamos do que se tratava. Meu pai foi até a rua, e viu o povo correndo, soldados armados aparecendo, e conseguiu parar um deles e teve a resposta – é a Revolução nas ruas.
Morávamos não muito longe. Rua Felipe Camarão. Naquele tempo, só havia residências. Fomos para casa, atravessando a Rio Branco debaixo de bala, eu com muito medo, todos andando apressados e ansiosos para chegar em casa. Lá haviam ficado os meus irmãos menores. Assim que chegamos,  nos metemos debaixo das camas, ouvindo o baralho dos tiros, por não sei quantas horas. Uma eternidade….
Pela manhã, meu pai contratou um soldado, que nos acompanhou, a pé, de nossa casa até a residência de um grande amigo eu, português, que morava na esquina da Dionísio Filgueira com a Av. Getúlio Vargas, onde estaríamos mais bem protegidos e aonde chegamos em paz.
Aí ficamos até o final da revolução, uns cinco ou seis dias depois. Dois fatos ficaram na minha mente: um sobrinho de meu pai, que o  procurou num carro cheio de revoltosos, ele em pé, no estribo do carro, fuzil atravessado no peito, para dizer-lhe que a revolução estava vitoriosa; o outro, no penúltimo ou último dia, aviões do Exército (ainda não havia a FAB), sobrevoando a praia, o que expulsou os revoltosos de Natal, pois havia uma ameaça de bombardeio da cidade, caso não se entregassem. Fugiram, e encontraram o velho Dinarte Mariz na Serra do Doutor, que os recebeu à bala.
O outro fato que marcou esse meu tempo foi a ameaça Integralista, quando em 1937 atacaram o Palácio do Catete, tentando derrubar Getúlio. O fato me faz recordar duas coisas importantes; primeiro, a vontade que eu tinha de entrar no Integralismo. Menino, não compreendia e nem sabia nada das motivações políticas por trás daquilo que me atraía – o uniforme, a camisa verde, a faixa no braço, com o Sigma desenhado; depois, a reação de meu pai, que além de me proibir de participar, ainda me deu uma lição de política, e me alertou para a semelhança com o nazismo, do qual eu nada sabia, mas que já dominava a Alemanha. Meu pai era um democrata nato. De origem humilde, veio do interior de Pernambuco para Natal, trazido por um irmão, e começou a vida como balconista. Aqui estudou comércio (também não havia outro), curso que lhe permitia trabalhar para sobreviver, e, com o passar do tempo e do seu esforço, conseguiu montar seu próprio negócio. Não tolerava radicalismos, de direita ou de esquerda, era um liberal,  e devo a ele, sem dúvida, esse mesmo comportamento que sempre tive e tenho até hoje.

A II Guerra – primeiros momentos

Essa lição política foi a minha preparação para Setembro de 1939. Com meus nove anos, a invasão da Polônia para mim era mais uma notícia, sem maior significado, a não ser a preocupação de meu pai, àquela época com negócios de importação da Europa, especialmente da Alemanha, principal parceiro comercial do Brasil, mas também da Inglaterra  e de Portugal. E a guerra iniciada, obviamente, lhe era prejudicial. Senti um pouco mais tudo isso logo em seguida, quando via na “firma” (era assim que se chamavam às empresas naquela época) as dificuldades que começavam. Meu pai era durão, e desde cedo me obrigava, esse é o termo, literalmente, me obrigava, a trabalhar na firma. Saia do colégio e, enquanto meus colegas iam jogar bola, iam para a praia, iam brincar, eu ia “dar duro”. Claro que não gostava nada, embora hoje reconheça que ele tinha razão.
E aqui, me permitam a digressão, não posso deixar de mencionar um outro fato que me marcou – meu primeiro entender, minha primeira compreensão, da ditadura em que vivíamos. O colégio em que estudava,  chamava-se “Colégio Pedro II”. Pois bem, o governo getulista obrigou o colégio a mudar de nome, sob a alegação de que com esse nome só o do Rio de Janeiro. O meu passou  a se chamar ”Colégio Ruy Barbosa”.
Meu pai era ligado a esses assuntos. Anglófilo, acompanhava de perto tudo o que ocorria na Europa. Amigo do Cônsul da Grã-Bretanha em Natal, contribuía para o esforço de guerra inglês, comprando bônus de apoio a RAF (Real Força Aérea), recebia revistas e jornais, escutava diariamente a BBC – tinha um dos poucos rádios da cidade, pois os vendia, importados da Inglaterra e da Holanda - PYE e Phillips. (Também vendeu Telefunken, mais aí já é outra história, e foi depois da guerra).  Nesse ambiente, o meu interesse foi crescente. E quando entrei no Aheneu, em 1942, já vinha acompanhando todos esses acontecimentos.
Outra digressão, fato marcante na época, para contar uma estória interessante. Havia poucos rádios em Natal. Luiz Romão, dono da Agência Pernambucana, primeiro vendedor de revistas em Natal, tinha um Serviço de Alto Falantes, espalhados pela cidade, um dos quais ficava em pleno Grande Ponto. Todas as noites, as 9 em ponto, o Grande Ponto em peso se reunia em torno do alto falante para escutar “Aqui é a BBC de Londres – Aymbêre falando para o Brasil”, com as notícias da guerra. Depois, as discussões e comentários dos ouvintes, com poucas dissensões, pois a grande maioria, se não a totalidade, era a favor dos ingleses. Mais, no meio, sempre surgia algum germanófilo. Um deles, um senhor de respeito na comunidade natalense, que ninguém queria contradizer, escutava no seu próprio rádio a “Voz da Alemanha” e chegava contrariando todas as notícias que haviam sido escutadas na BBC. Um dos presentes, respeitoso, não agüentou e se saiu com essa: Dr. Fulano, esse rádio do senhor é muito mentiroso… Ficou a respeitosa contestação.

II Guerra – segundo momento

Já estava no Athenu, em 1942, iniciando meu curso secundário, quando começaram a chegar os americanos em Natal. E daí por diante a II Guerra estava presente em nosso dia-a-dia.
Tinha eu 11 anos. As transformações que sofreu nossa geração, em razão da presença dos americanos em Natal, foram enormes. Dois exemplos simples e rápidos. Ao entrar no Atheneu, já tinha um ótimo conhecimento de francês. Meu tio padre, antes mencionado, era professor de francês, e desde meus nove anos estudei com ele. Escrevia, lia e falava razoavelmente bem a língua. Com a invasão americana, comecei a estudar e me interessar por inglês e esquecer o francês, língua que, na época, ainda era a mais importante no mundo e no Brasil. Segundo exemplo, a forma de vestir. Em 1942, usava-se farda militar nos colégios. A do Atheneu era caqui, com túnica e quepe, camisa branca e gravata preta, sapato preto e meias pretas. Sem ela, não se assistiam às aulas. Em 1948, ao terminar o curso, já usava calças jeans, alpercatas e “slack” – uma camisa que se usava por fora das calças.
Meu pai, a essa altura, fundara uma outra firma, junto com dois amigos,  para construir os quartéis dos americanos, em Parnamirim, e do Exército brasileiro em Natal. Depois das aulas, trabalhava com ele. O meu serviço era principalmente ajudar a preparação da folha de pagamento semanal dos operários, preparar os envelopes e colocar o dinheiro em cada um, para fazer o pagamento nos sábados à tarde. Trabalhava-se 24 horas por dia, ritmo de guerra.
Assisti assim a construção da base aérea. Vi, entre outras, a construção da pista que ligava Natal a Parnamirim, que impressionou pela rapidez  e pelas máquinas usadas, para nós grande novidade. A de colocar o asfalto, chamada  “Barber-Greene”, que é o nome do fabricante, era impressionante. Os prédios eram levantados com rapidez. Dinheiro não faltava. A quantidade de operários era enorme. Em algumas obras, chegamos a ter 800 pessoas trabalhando. Em Natal,  nossa firma construiu a maioria das  obras para o Exército. O atual Quartel General (na época, para o Batalhão de Artilharia Anti-Aérea), o Batalhão de Engenharia, o Quartel das Rocas, entre outros, foram algumas dessas construções.
Tomei a minha primeira Coca-Cola e comi o meu primeiro “hambúrguer”, no PX de Parnamirim. O PX – abreviação de Post Exchange, uma espécie de supermercado de hoje -, existia para atender as necessidades dos soldados americanos, ao qual tinha acesso em razão das construções que meu pai fazia em Parnamirim, e onde comprava revistas, livros, cigarros americanos, e outras bugigangas que Natal nunca havia visto antes. (Uma pequena digressão – como não se dão valor, na juventude, a certas coisas; tinha um cartão de identificação emitido pelo ATP – Air Transport Command – que me permitia entrar na Base Aérea, circular por todas as partes, comprar no PX, e não o guardei – já imaginaram o valor histórico isso teria hoje?)
Com a chegada dos americanos, com a chegada das tropas brasileiras, Exército, Marinha e Aeronáutica, o clima de guerra foi “esquentando”.  Com a intensificação da guerra no Norte da África, com as vitórias alemães, a ameaça ao Suez e à Dacar, se esperava um ataque à Natal a qualquer momento. Chegava-se mesmo a pensar num possível bombardeio da cidade – por submarinos isso era possível -, e vivemos um momento de medo e “black-out”. Os carros tinham papéis pretos nos faróis, com uma fina abertura para iluminar o caminho; as casas tinham suas janelas e portas com as vidraças escurecidas, e à noite, nenhuma luz era acesa que pudesse refletir na rua.
A Prefeitura construiu vários abrigos antiaéreos nas praças de Natal. A Pio X, onde hoje é a Catedral, estava cheia desses abrigos; a Pedro Velho, hoje Praça Cívica, também. Algumas famílias construíram seus próprios abrigos. Meu pai, com as facilidades que tinha como construtor, fez um em nossa casa. Grande, com duas saídas, banheiros, dois respiradouros, foi abastecido com água e comida para durar pelo menos três dias. Nas simulações de ataques aéreos, no início se avisavam os ensaios. Holofotes acendiam, aviões sobrevoavam a cidade e os holofotes os clareavam, tudo como se fosse um ataque de verdade. Depois, vinham sem aviso. E, pegadas de surpresa, muitas pessoas tinham medo, e corriam para os abrigos. Acho que, em nossa casa, fomos algumas vezes para o nosso. Os parentes que moravam perto eram freqüentadores. Lembro-me de um tio, que chegou alvoroçado por volta da meia noite, dando bom dia a todo mundo. Há poucos dias, na construção de um estacionamento na nossa antiga casa, na Rua Assu, foi descoberto esse abrigo, do qual já não me lembrava e que pensava tinha sido soterrado por meu pai. A Tribuna do Norte e a TV Cabugy me entrevistaram sobre o assunto.
A Ribeira, hoje em estertores, fervilhava de vida. Comércio, bares, boates, até cassino, pululavam. Sem esquecer as famosas casas das mulheres da noite. Final de tarde e começo de noite, os americanos ocupavam o bairro, gastando dinheiro à vontade, e bebendo às pampas. Patrulhas da PM americana, do Exército, da Marinha, dos Fuzileiros Navais, andavam para cima e para baixo, mantendo a ordem. E como a mantinham…Qualquer arruaça era enfrentada com violência. E, na hora de recolher, que acho era  aí pelas 21 horas, todos se recolhiam mesmo. Do soldado ao comandante. No Grande Hotel, foco de toda essa movimentação, que sempre ficava cheio de oficiais, quando chegavam às 21 horas, não ficava ninguém, e se ficava alguém, quando a PM aparecia, pegava o boné e partia, patente fosse a que tivesse. Sinais evidentes de democracia e respeito à     lei e a ordem. Um dos exemplos que não ficou…..
Também havia patrulhas do nosso Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que mantinham a ordem de nosso lado.
Havia ainda os U.S.Os. Um na Ribeira, outro na Av. Getúlio Vargas, outro em Parnamirim. Eram clubes onde se apresentavam grandes shows para os militares americanos e seus convidados. Também havia hospedarias em Natal, além dos quartéis em Parnamirim. Lembro-me da “Staff House”, perto de minha casa, onde todas as noites passavam filmes, e onde conheci o artista americano que fazia o papel de Flash Gordon na série do mesmo nome – Larry “Buster” Crabbe. Nessa “Staff House” se hospedavam os pilotos que levavam aviões para a África e traziam feridos de volta para convalescença em Natal.
Nos U.S.Os., tive oportunidade de ver famosas orquestras americanas, como a de Tommy Dorsey e Glenn Miller; artistas como Joe Boca Larga, Tyrone Power, Ginger Rogers (que dançava com Fred Astaire), e outros tantos. Na cidade, e alguns em plena Dr. Barata, vi figuras como a Sra. Chiang Kai Check, o Rei Ibn Saud, da Arábia Saudita, Roosevelt com Getúlio, e outros tantos  que por aqui passaram. Em Parnamirim, que recebia e despachava em redor de 400 a 500 aviões por dia, vi gente da Rússia, da Inglaterra, França Livre, num movimento fantástico.
Quero encerrar contanto dois fatos que me marcaram. O primeiro, numa loja de meu pai, na Ribeira. Chegaram alguns americanos, procurando comprar alguma coisa, e eu, metido a falar inglês, recebo ordem de meu pai para atendê-los. Comecei a falar com eles, procurando entender o que desejavam e respondendo as perguntas, quando escuto um deles dizer – menino, vá buscar alguém que fale inglês, pois não temos tempo a perder. Foi uma ducha de água fria e uma lição – passei a estudar muito mais a língua.  O segundo não aconteceu comigo, mas me foi contado por um amigo que trabalhou em Parnamirim. O chefe da oficina mecânica, brasileiro, tinha como seu chefe um oficial americano, que se tornou seu amigo. Falava com o americano aos gritos (na certa pensava que no gringo era surdo), e com gestos. Levava-lhe presentes; mamão, mangas, abacaxis. Um dia perguntou-lhe se gostava de ovos; o americano não entendia e ele gritava, ovos, ovos, e nada. Fez o gesto, e o americano, assombrado, retrucou, oh!

Da Encomenda

Posted in Artigos de 2002 by Dalton on fevereiro 23rd, 2002

Quem não já passou por isso! Fazer ou pedir encomendas é doença nacional. Dou um doce a quem não tiver recebido um pedido desses, para levar ou trazer.

Lembro-me de um tio meu, Pelúsio Mello, nos tempos de estudante de Medicina no Recife, aí pelos idos dos anos 30. Viaja-se de trem, Great Western, saindo cedinho e chegando às 9 da noite - quando tudo ia bem. Pediram-lhe que levasse uma lata de biscoito Pilar (a jovem guarda não conheceu a lata), cheia de cocadas. Foi um sucesso com os colegas, porém Pelúsio resistia impávido. Mas, por volta do meio dia, a fome era maior que o autocontrole, e resolveu comer uma cocada; como era um portador sério, escreveu um “vale uma cocada” e colocou na lata. O assédio dos colegas foi tal que, ao chegarem no destino, a lata estava cheia de papeis com o “vale uma cocada”.

Não chego a tanto. Já comi um bolo inteiro, numa viagem de navio ao Rio, junto com Walflan Queiroz - por sinal, era ele o portador. Sem vales. Não sei que desculpa deu, mas sem dúvida foi inteligente e aceita pelas “partes”.

Minha experiência é diferente. Convenhamos, sou um bom portador, indo ou voltando. (Atenção, isso não é propaganda e não serve para ser explorado). Tento, no melhor do possível, atender aos pedidos dos amigos. Mais das vezes consigo. Casos há, porém, impossíveis.

Numa das minhas viagens à Londres, um grande amigo pediu-me um CD com músicas da Segunda Guerra; especial, não encontrado no Brasil, com bandas e cantores ingleses da época, e até me interessei em comprar um para mim. Deu-me todas as informações, rua, bairro, linha de ônibus, metro, telefone - era longe do miolo londrino habitual dos visitantes fugazes. No hotel, o rapaz da recepção olhou para mim com ares de despedida, assim como um “goodbye” definitivo, quando lhe pedi informações. Desconfiado, convidei Odilon Garcia, que estava comigo, para a aventura.

Saímos aí pelas nove da manhã e voltamos, são e salvos, por volta das duas da tarde. No ínterim, andamos horas de ônibus, chegamos ao mais decrépito dos lugares, vimos às caras mais mal encaradas da paróquia, e encontramos o lugar sim, fechado, sem qualquer indicação de gravadora, e sem vivalma. Havia recebido uma “Mensagem a Garcia”, sem trocadilhos. Tenho absoluta certeza de que mesmo Sherlock Holmes, nas suas andanças londrinas em busca de criminosos, não se aventuraria naquele lugar - com ou sem Watson.

Fiquei um tanto decepcionado. Principalmente por não ter cumprido a “missão”. Para comprovar o feito, além da aventura, tirei fotografias da “gravadora”, comprovando sua inexistência, guardei os tíquetes do ônibus, tudo para que o meu amigo, que eu sabia nunca desconfiaria de mim, ficasse absolutamente certo das peripécias. E ao entregar-lhe todo esse “material”, qual foi minha surpresa ao ter a informação, “rapaz, depois que você viajou descobri que o CD era pirata e o endereço fajuto, mas não tive como lhe avisar”. Valeu a experiência, pois, daí por diante, resisto muito a novas encomendas, que sempre surgem.